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GAZETA SETUBALENSE
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Entrevista
Carlos Zacarias prepara o seu primeiro disco de originais
ana maria santos
2017-03-29 / 08:50
FONTE: DR
Ligado ao mundo do espetáculo desde os 17 anos, Carlos Zacarias é professor atividade que desenvolve em paralelo com as suas grandes paixões: a música e a representação.

Professor de geografia há 21 anos, ator, encenador e cantor. Estas são algumas das muitas “profissões” de Carlos Zacarias. Ao fim de mais de 25 anos ligado à música e às artes do espetáculo, prepara agora o seu primeiro trabalho de originais Geografia do Fado

Gazeta Setubalense: É professor há mais de 20 anos. Quando é que começou a sua relação com a música?

Carlos Zacarias: Eu comecei cedo. No início não como músico mas como cantor amador, numa coletividade em Vendas de Azeitão - o Grupo Musical União e Progresso de Vendas de Azeitão, que ainda hoje existe embora seja União e Progresso Desportivo. Na altura o meu pai, que embora não tivesse formação musical tocava acordeão, desde o mais popular ao mais erudito, foi tocar para a orquestra e eu, com 17 anos, muito introvertido, disse ao meu pai que também queria ir e tentar cantar. Todos ficaram surpresos, mas já nessa altura sentia que queria fazer algo nas artes, ligado ao teatro e à música.

GS: Como foi então essa primeira experiencia?

CZ: Na primeira vez que cantei em palco, num espetáculo, foi por acaso um fado – um fado do Ribatejo. Lembro-me de ter subido ao palco e ter saído, mas até hoje não sei o que se passou enquanto estava lá em cima, tal não era o nervosismo. Estava um pouco “verde”, mas safava-me e a partir daí comecei a fazer vários espetáculos com essa orquestra, cujo maestro era o José Marquês.

Numa noite de fados amadora, onde também cantei dois fados, recordo-me que uma das pessoas que esteve a cantar connosco era nem mais nem menos que o Camané, na altura com 10 anos e que já cantava muito bem. Na altura fiquei muito entusiasmado com aquilo, cantei o melhor que sabia e a partir dai aconteceram mais alguns apontamentos de fado.

GS: Como é que surgiu essa paixão pelo fado?

CZ: Lembro-me que desde a adolescência, enquanto os meus primos compravam discos dos Deep Purple, eu comprava discos de fado da Ada de Castro e outros. Sempre tive um fascino muito grande pela guitarra portuguesa, o som da guitarra deixa-me fascinado, gosto muito e arrepia-me e é isso que me faz gostar ainda mais do fado porque quando canto sinto a alma portuguesa naquele som.

GS: E desde essa altura nunca mais parou?

CZ: Nunca mais parei. Nessa altura apenas cantava com a orquestra. Já um pouco mais velho, com vinte e poucos anos, vim para Vila Nogueira de Azeitão, para a Sociedade Filarmónica Perpetua Azeitonense cuja orquestra ligeira era dirigida, na altura, pelo maestro Joaquim Caineta que me deu acesso, ainda, ao mundo do espetáculo.

Entretanto a pessoa que estava responsável pelo teatro começou também a ter outras atividades na Sociedade e a dada altura convidou-me para fazer parte do grupo de teatro, onde comecei como atore encenador. Em simultâneo trabalhava e estudava.

GS: O teatro é também uma atividade muito presente na sua vida…

CZ: Desde que comecei a fazer teatro nunca mais deixei. Tenho feito algumas participações, nomeadamente com alguns grupos de Setúbal. Fiz parte do grupo que fez a o musical da Luísa Todi, onde interpretava a personagem do marido da Luísa Todi, o Francisco Saverio Todi e foi muito bom trabalhar com o Miguel Assis, com quem aprendi muito, enquanto diretor e encenador, para além de todas as outras pessoa, amadores e profissionais de Setúbal que se juntaram.

Tive ainda o privilégio de partilhar o camarim com dois atores, o Fernando Guerreiro e o Álvaro Félix, do TAS. Também fui dirigido pela atriz São José Lapa, na peça Olhando o Céu estão todos os Séculos, de Abel Neves. Trabalhei ainda com o grupo Fatias de Cá, de Tomar, que fazem espetáculos apenas em monumentos históricos. Com eles fiz o Auto da Encomendação das Almas, no Convento da Arrábida.

Neste momento sou responsável pelo grupo de teatro infantil há mais de 10 anos.

GS: No fundo manteve sempre a sua profissão de professor mas sem nunca deixar o teatro e a música…

CZ: Sim, a profissão de ator ou cantor é mais incerto e depende de fatores que nem sempre conseguimos controlar e, assim, tenho o melhor dos dois mundos e trabalhar em conjunto com as coletividades dá-nos uma enorme riqueza, prepara-nos para fazer qualquer coisa ao nível do espetáculo. 

GS: Então como é que surge essa vontade de cantar fado de uma forma mais profissional?

CZ: Aconteceu um pouco por acaso. Como gosto muito de fado e de o cantar descobri um site na internet com versões de musicas de fado para karaoke. Comecei a explorar as músicas e comecei a apaixonar-me ainda mais pelo fado e a perceber cada vez mais quais são os diferentes tipos de fados. Aliás é o instrumental que permite classificar o tipo de fado e não o nome da música. Isto acontece porque os diferentes tipos de fados podem ter as mesmas letras aplicadas sendo que a sonoridade fica completamente diferente, dependendo se é um fado bailado, um fado rigoroso, um fado menor, entre outros. Existem muitos estilos.

Neste momento estou a tentar juntar um reportório meu. Nunca tinha pensado nisso e agora estou a pensar nisso a serio. Tenho alguns poetas amigos que estão a trabalhar comigo nas letras.

GS: Tendo já o seu tempo tão preenchido, como ensaia os fados?

CZ: Para aproveitar ao máximo o meu tempo ensaio no trajeto de casa para o trabalho… coloco a pen no carro e enquanto conduzo vou a cantar (risos). Por exemplo, tenho aqui um poema do Bento Passinhas, que é um dos poetas que está a compor para mim e todos os dias vou treinando. E assim todos os dias canto fado, todos os dias ouço fado.

GS: Para quando a apresentação de um trabalho seu?

CZ: Este ano a Junta de Freguesia de São Lourenço convidou-me a organizar a noite de fados nas Festas da Arrábida, pelo que vou ter oportunidade de apresentar algumas músicas minhas e também de convidados. É algo já mais serio. Vou ter comigo a fadista Ana Pacheco, uma artista também aqui da zona e também professora.

Sempre fui fazendo alguma coisa ao nível do fado, mas até aqui não tinha investido muito do meu tempo nessa vertente, da qual gosto cada vez mais, o que me levou a pensar ser agora o timing certo para avançar com este projeto. Alem disso, é algo que não interfere com nadas das outras coisas que faço e também não acarreta grande logística, basta a voz e uma guitarra.

GS: O que é mais importante no fado?

CZ: Primeiro é preciso ter alma. Depois o som da guitarra portuguesa e o poema. Se o poema não disser nada é um problema.

GS: E qual é o seu género de fado preferido?

CZ: Eu gosto muito do fado tradicional. Aliás, a minha mulher gosta daquele fado mais “picadinho” e eu gosto mais daquele fado que “faz doer”. Mas o principal é o poema dizer alguma coisa.

GS: Em que fase esta a elaboração do álbum de originais?

CZ: Neste momento estou à espera de alguns poemas, os tais que pedi a alguns amigos poetas, para depois adaptar aos fados tradicionais. Ou, até quem sabe, como o meu filho mais velho é compositor pode ser que ele faça alguma música.

GS: Em relação à nova geração de fadistas qual a sua opinião?

CZ: Adoro, são muito bons… Trata-se de uma tentativa de modernizar, de tornar mais contemporâneo e atrair um público mais jovem. E está a resultar. Nomes como Ana Moura ou Raquel Tavares mas, para mim, o Ricardo Ribeiro, que também é da nova geração, é mais tradicionalista, gosto mais e é sem dúvida uma grande influência para mim. Para além do Carlos do Carmo, que é um senhor. Também a Raquel Tavares quando começou era mais tradicional, era mais bairrista. Mas não me choca, Tudo se pode fazer. Aliás isto é um pouco como o jazz. A complexidade do fado permite com o mesmo instrumental e letra diferente corresponder a diferentes estilos de fado.

GS: Mas por outro lado, o fado pode ser muito mais flexível do que parece…

CZ: Sim, o fado permite conjugações múltiplas. E é realmente de uma riqueza que não se consegue descrever

GS: Em que fase está o álbum?

CZ: Neste momento estou ainda a recolher o reportório. Nas Festas da Arrábida já pretendo fazer a apresentação de alguns temas mas para já ainda é cedo. Depois de concluído o álbum tenho que encontrar uma editora. Ainda não fiz contatos nesse sentido, contudo tenho um familiar que toca em casas de fado em Lisboa e vou tentar que ele faça a ponte com algumas pessoas do meio.

GS: E de que forma é que se imagina depois a divulgar as suas músicas?

CZ: Eu ainda só vejo o fado numa versão mais intimista, ou seja, em casa de fados, sem amplificação, onde se destaca a voz. Essa intimidade, a escuridão, o silêncio, a luz da vela faz muita falta ao fado e eu revejo-me nesse estilo. Mas por outro lado, não ponho de parte outras opções, se houver um trabalho editado, que eu espero muito que se concretize em breve, não vejo qualquer problema em fazer espetáculos. Tenho também pensado enviar uma maquete para a Rádio Amália.

GS: E o álbum já tem nome? Quantas músicas serão?

CZ: Eu gostaria que fossem 10 músicas. Neste momento tenho já 4 ou 5, porque eu também escrevo. Estou à espera das letras da Alexandrina, o Bento Passinhas também me vai enviar mais algumas. Também gostaria de incluir letras e músicas de cantores já conhecidos mas ainda não sei ao certo. Mas entretanto já pensei num nome para o álbum – Geografia do Fado.

GS: Inspirou-se na sua profissão de professor?

CZ: Sim, tem obviamente uma ligação, mas por outro lado, faz todo o sentido porque o próprio fado tem características muito diferentes de bairro para bairro ou até de região para região e isso também dá uma grande identidade. Por um lado eu sou geógrafo e é possível também fazer a radiografia geográfica de Lisboa através do fado. Já consigo ouvir um fado e identificar de que bairro é proveniente, por exemplo temos o Bairro Alto, o Adeus Mouraria, Marcha de Alfama ou o Fado da Madragoa, que pelo nome já identifica o bairro. E isto se não quisermos ir para um fado menor do Porto, que tem uma toada diferente do fado menor de Lisboa e há o fado de Coimbra, com uma sonoridade muito particular porque a afinação da guitarra é diferente.

Cidália Lopes

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