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GAZETA SETUBALENSE
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Entrevista
DJ Pedro Monchique: “Passamos de bestiais a bestas num estalar de dedos”
ana maria santos
2017-02-12 / 18:40
FONTE: DR
Ligado, desde criança, ao meio musical, o setubalense Pedro Monchique começou a passar música na adolescência e a vida foi-lhe traçando o rumo que o trouxe até ao patamar onde hoje se encontra. DJ realizado com o seu trabalho, mostra-se grato por ter concretizado sonhos profissionais e humilde para reconhecer que o futuro ainda tem muito que ensinar.

Gazeta Setubalense: De onde te vem este gosto pela música e a opção de seres DJ?

Pedro Monchique: Bem, isto começou no início da década de 90. O gosto da música já vinha detrás, com raízes no meu pai, que foi vocalista numa banda muito conhecida que era a “Contágio” de onde acabou por sair, passando a ser disco-jóquei em algumas casas de Setúbal. Por essa vivência sempre ouvi e estive ligado ao meio musical...

G.S.: Mas quando foi que sentiste que seria esse o teu futuro profissional?

P.M.: Comecei por brincadeira, na cave de um café que a minha avó tem no bairro Santos Nicolau, a organizar umas festas. Pintamos as paredes, pusemos umas luzes de discoteca e era naquele local que nos encontrávamos para passar as tardes de inverno, ouvir música, fazer matinés e as nossas noitadas. Estávamos no início dos anos 90 e para nós, miúdos de 16, 17 anos, o sair há noite ainda era um mundo por explorar. Com efeito, foi exactamente nessas festas improvisadas que a “brincadeira” começou… depois o meu pai, já em 94, teve a concessão de um bar em Tróia, em conjunto com o Filipe Codinha, que trabalhava na Torralta e que na altura passava por um período conturbado de salários em atraso, tendo-me convidado a mim para ser o disco-jóquei na época de Verão e a coisa deu-se… nunca mais parei.

G.S.: Na área de Setúbal e fora dela…

P.M.: Sim! Na altura, entre 94 e 99, fui andando por aqui, trabalhei em algumas das casas mais conhecidas de Setúbal e comecei a ter uma primeira abordagem da noite que até ai não tinha tido: é completamente diferente estarmos confinados a quatro paredes a estar num complexo turístico a colocar música, ou em discotecas apinhadas de gente e apesar de ser muito jovem, do espirito rebelde da jovialidade, até ao final da década de 90 sempre encarei aquela minha vertente como uma função que me dava algum dinheiro. Eu estudava, ajudava a minha avó e ainda tinha dinheiro para comprar alguma coisa que quisesse… Comecei a encarar esta profissão de uma forma mais séria e profissional quando fui convidado para ir para o Algarve, trabalhar na Horta2, em Portimão.

G.S.: Onde deves ter recebido um choque de multidão…

P.M.: Tive noção que aquilo que alguns dos meus amigos me diziam, que eu tinha qualquer coisa de diferente nesta área, poderia ser verdade e que eu poderia ir mais longe nesta profissão. Aliás, a concentração nocturna nacional vivia-se, naquela época, toda a sul: as grandes festas, os grandes eventos, a apresentação dos melhores disco-jóquei’s aconteciam todas no Algarve… mas, para mim, o Algarve foi uma desilusão tremenda

G.S.: Não foi escola?

P.M.: Não! Talvez por lá ter estado pouco tempo, muito embora tenha sido benéfico ter saído da minha área de conforto e estar longe de casa, mas o que diziam, na altura, que o Algarve é que era eu não senti isso e foi essa a desilusão. Mas acabou por ser uma experiência engrandecedora no aspecto em que estava num espaço diferente e longe de casa… mas, quando estava no Algarve, fui convidado para vir para Setúbal encabeçar um novo projecto a abrir na cidade. Estávamos numa época complicada da noite de Setúbal. O Seagull tinha acabado de arder e as pessoas andavam meio perdidas, sem encontrar um local de referência onde se sentissem bem… aliás, acho que houve uma geração em Setúbal que não fez o luto do Seagull e andavam a saltar de sítio para sítio sem saber muito bem o que lhes agradava…

Bem, mas foi-me feito o convite para vir trabalhar para o KGB que, na altura, revolucionou a noite de Setúbal, porque os sócios quiseram abrir aquilo como um espaço para amigos, onde as pessoas se encontrassem e estivessem tranquilas a beber um copo e, no espaço de um mês, deu completamente a volta… Era tanta a “sede” das pessoas de terem um espaço daquela natureza, onde se divertissem a sério, que o bar de amigos rapidamente passou a discoteca da moda

G.S.: Uma experiência válida, então?

P.M.: Foi um percurso muito interessante e onde tive oportunidade de entrar em contacto com as várias realidades da noite. Foi um espaço que conseguiu entrar, na altura, no boom nacional que era o Big Brother conseguimos ter a primeira marca a vestir alguém famoso dentro de um reality show em Portugal, conseguimos, com esse acordo, trazer cá as pessoas – e deve ter sido aí que nasceu a presença das figuras públicas nas discotecas – fomos, provavelmente, o primeiro bar em Setúbal a fazer uma Lady’s Nitgh, com valores fixos nas bebidas para as senhoras… O KGB mudou um bocado o panorama da noite em Setúbal. Não quero dizer com isto que o que ficou para trás também não foi exemplo, porque casas como o Aldrabar e o Conventual também marcaram a noite setubalense, mas o KGB foi uma escola e foi naquele espaço que aprendi a ser o profissional que sou hoje… saber analisar um espaço e agregar gerações.

G.S.: Fazes esse estudo atempadamente? Ou seja, analisas o local, e o tipo de pessoas que o frequentam, antes de passares música?

P.M.: Não!... É uma situação completamente diferente! Eu, quando me tornei freelancer já trazia a escola do KGB e de outras casas por onde passei… e essa pergunta é interessante porque quando me convidam para determinada casa não vou lá propositadamente para ver como é, ou não é, mas gosto sempre de ir um bocadinho mais cedo, para ver o tipo de pessoas que lá estão… Como eu costumo dizer: eu faço tudo como a caldeirada e a melhor é a que é feita no momento: eu chego ao sítio, vejo as pessoas na pista, vou olhando e analisando e vou tirando as minhas próprias deduções que se baseiam, principalmente, no seguinte pensamento: “eu estou deste lado, se estivesse daquele o que é que eu queria ouvir?” e vou metendo uma e outra e à quarta, quinta música já sei o que as pessoas querem, sem não me esquecer de que num espaço estão vários tipos de pessoas…

G.S.: Estiveste no KGB até 2004. Saíste e foste para onde?

P.M.: Quando saí do KGB fiz uma travessia no deserto. Costuma-se dizer que quando corre tudo bem  somos os maiores, quando as coisas correm mal passamos de bestiais a bestas num estalar de dedos… A marca KGB afundou-se e, como na grande maioria dos casos, acabou por fechar portas e eu fui por arrastamento com o barco, para além de ter sido, também, achincalhado pelas pessoas da noite de Setúbal, pelo facto de que: “se a casa fechou tu és o culpado” porque, nestes casos, costuma-se dizer, quando as coisas não correm bem, que os disco-jóquei’s é que não prestam…

Na ocasião falei com a minha mulher e fiz uma pausa, uma espécie de celibato, para colocar as ideias em ordem. No entanto, após o patamar que eu já havia alcançado e apesar de tudo o que se tinha passado ali, no meio de toda esta nuvem negra eu tinha futuro nesta área…

G.S.: Tiveste novo convite?

P.M.: Não! Passados três meses sem ninguém me ver ou saber de mim, voltei a aparecer numa passagem de ano, no Comporta Café, onde eu sabia que ia estar o grupo de pessoas que me haviam fustigado meses antes. O que é certo é que fui muito bem recebido e apercebi-me de que tinha mais a ganhar, do que a perder, em continuar nesta profissão e, em 2005, recomecei do zero e as coisas têm resultado.

G.S.: Integras-te novos projectos…

P.M.: Sim! Fui convidado para o projecto do Lounge Caffé, onde estive sete anos, e que arrisco a dizer, deu em 2005 com o rabo do peixe na cara das pessoas… porque criou um espaço muito interessante e acolhedor. Paralelamente a este projecto fui tendo outros: estive um ano em Sesimbra, na Bolina, que foi também uma experiência muito engrandecedora; comecei a fazer rádio e aproveitando todos os contactos feitos anteriormente no KGB. Entretanto sai do Lounge e fixo-me para o Avenue Café, que era o bar da moda em 2007, onde enfrentei um desafio serio: era ainda do dono do KGB e se eu, três anos antes, tinha afundado uma casa desse senhor, e eu voltava à toca do lobo e ouvi da boca de alguns dos clientes dizerem para o gerente: “ele agora está aqui e vai-te enterrar isto também!”. Mas foi bom ouvir esse tipo de coisas porque ao ouvi-las, não reagindo e não respondendo, a nossa força é outra…

G.S.: Entretanto estás presente na abertura do RS Dream’s, em Corroios…

P.M.: Que foi uma grande escola… o RS pertencia ao grupo Remédio Santo, que teve casas espectaculares na Costa da Caparica, casas onde, por noite, entravam milhares de pessoas. Fui convidado pelo Samuel Lopes e o RS foi o local onde eu conheci aqueles disco-jóquei’s que eu via nas capas dos CD’s e que de um momento para o outro passaram a estar, presencialmente, ao meu lado… era uma casa que trabalhava não só ao fim-de-semana e onde a uma quarta à noite, por exemplo, entravam 2.500 pessoas… Foi a minha maior experiência enquanto disco-jóquei!

G.S.: Em 2010 passas a residente da Associação Académica de Setúbal do IPS

P.M.: Decidi passar a freelancer e, através do trabalho aqui realizado, começo a ser conhecido noutras comunidades estudantis e a ser convidado para a realização de festas académicas, semanas académicas, recepções aos alunos e acompanhamento dos finalistas, todos os anos, para Espanha.

G.S.: O Absurdo é o último projecto onde estás envolvido

P.M.: Desde 2012 que colaboro com o Aburdo, uma das melhores casas existentes em Setúbal neste momento… foi um namoro que foi ganhando contornos de casamento e, desde há dois anos, a partir do momento em que abriram o novo espaço na Doca dos Pescadores, fui convidado para DJ residente, portanto, passámos para a fase de casamento.

G.S.: Que objectivos tens actualmente?

P.M.: Neste mundo o sonho é claro: estar entre os grandes! Mas também temos consciência de até onde podemos chegar e eu conheço as minhas limitações. Eu posso dizer que já trabalhei com os meus DJ’s de eleição! Continuo a ter sonhos, mas não passam pela área profissional, porque nessa área os sonhos já estão cumpridos…

G.S.: Se pudesses escolher um local, em Portugal, para passar música, qual escolherias?

P.M.: Nos melhores Sunset’s que se fazem a nível nacional… porque acho que a noite está a perder glamour. Com esta crise europeia acho que as pessoas perderam vários valores, nomeadamente o respeito, a educação e os valores próprios e isso na noite é bem visível. Actualmente a noite é completamente diferente do era há 15, 20 anos e temos que ser nós, profissionais da noite, a voltar a reeducar as pessoas… até lá vamos aguardar!

G.S.: Que conselho podes deixar a quem queira seguir esta profissão?

P.M.: Para quem pensar em ser disco-jóquei é fundamental ser humilde; saber aceitas as críticas dos outros, não é fácil ouvir certas e determinadas coisas, e ser autocritico; poucos irão ser aqueles a estarem ao vosso lado a dizerem que vocês têm valor e vão singrar; bocas largas para engolir alguns sapos muitas horas de sono perdidas, ter um conhecimento abrangente musical e criar a sua identidade enquanto disco-jóquei. Esta não é uma vida fácil. Eu com 23 anos nesta área ainda não sei tudo…

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