Secções

Opinião Sociedade Economia Política Região Turismo Cultura Desporto País Especiais Emprego Tecnologia Saúde Ambiente Inovação Internacional Cartaz Directório Mundo Entrevista Exclusivo Editorial

Directório

Adicionar Entidade 

Sobre

Termos e Condições Privacidade e Cookies Acordo Ortográfico Regras da Comunidade Ficha Técnica Estatuto Editorial Contactos

Siga-nos

Facebook Twitter
Thank you! Your submission has been received!
Oops! Something went wrong while submitting the form
Pesquisar
GAZETA SETUBALENSE
A informação na hora certa.
Entrevista
Entrevista a Pedro Dias:
“Existe muita vontade e capacidade na pessoa com deficiência”
ana maria santos
2017-05-09 / 19:51
FONTE: Gazeta Setubalense
Pedro Dias é um homem que, tal como poderia ter acontecido a qualquer um de nós, nasceu diferente, não no que respeita à vontade de concretizar projectos, alcançar metas e ter uma vida digna e válida, mas sim porque nasceu com limitações que o tornam uma pessoa fisicamente diferente, mas que nunca o impediram de concretizar tudo a que se propôs, sempre motivado e consciente de que poderia fazer mais e melhor.

Licenciado em Sistemas de Gestão de Informação, pela Escola Superior de Ciências Empresarias do IPS de Setúbal, Pedro Dias, 32 anos, tem uma paralisia cerebral, parte motora, que, a custas próprias, tenta, diariamente ultrapassar, levando-o a conquistar o seu próprio espaço com o objectivo de ser um cidadão independente e responsável pelo seu próprio futuro.

Gazeta Setubalense: Pedro, tendo em conta a sua deficiência e o seu percurso pessoal, académico e profissional, que papel desempenhou a sua família para o motivar a prosseguir com todos os projectos a que se propõe?

Pedro Dias: A minha família sempre teve um papel muito importante nesse aspecto e hoje em dia, de todos os sacrifícios que fizeram posso, entre outros, agradecer-lhes a vontade com que acordo todos os dias de manhã para trabalhar. Estou ciente que, quando os meus pais fecharem os olhos, porque um dia isso irá acontecer, vão deixar um ser autónomo e capaz de se orientar por si próprio e penso que esta é a sua e a minha maior vitória…

G.S.: A sua vida tem sido de luta, esperança e sempre a desenvolver novos projectos. O que faz neste momento?

P.D.: Desde os 15 anos que faço acções de sensibilização nas escolas, já tive programas de rádio, já fui consultor e, em 2014, constitui a minha própria marca: “Pedro Dias – Uma Vida Um Projecto!”, da qual sou gestor e que é uma marca inclusiva, com identidade e objectivos. Neste momento este é o meu projecto de vida…

G.S.: E o que faz através da sua marca?

P.D.: Procuramos fomentar a criação de oportunidades inclusivas, em todos os sectores da sociedade, demonstrando, por um lado e às pessoa com deficiência, que o sucesso do seu processo de inclusão está, em grande medida, na suas mãos e, por outro lado, demonstrar à sociedade que a palavra deficiência não significa, necessariamente, exclusão e incapacidade. Também é muito importante que as pessoas percebam que existe muita vontade na pessoa com deficiência e muita capacidade, também…

G.S.: E que portas é que se têm aberto a nível social?

P.D.: Posso dizer que, a nível social, muito coisa já evoluiu e a deficiência já não é encarada como há uns anos atrás, mas existe ainda um longo caminho a percorrer, quer por parte da sociedade, que tem que olhar para as pessoas, enquanto pessoa, ser humano e não “só” como deficiente, quer por parte das próprias pessoas com deficiência, e das próprias famílias que, nos casos em que a deficiência o permite, devem ser incentivadas a assumirem uma outra postura, mais positiva, que transmita à sociedade uma oura imagem. Uma imagem mais capaz, mais autónoma, mais proactiva e positiva, porque só quando houver esta mudança de mentalidades, quando a sociedade começar a perceber que nas pessoas com deficiência existe cada vez mais vontade, cada vez mais proactividade e mais empenho, é que se irá começar a abrir um novo mundo de oportunidades…

G.S.: E esse é um trabalho a ser feito pela sociedade, ou em conjunto com o trabalho que falta ainda ser feito pelo próprio deficiente e a sua família?

P.D.: Há aqui que fazer um parêntesis: o pior que se pode fazer, quando se trabalha na área da deficiência, é generalizar e isto é muito importante que fique bem claro… Há uma questão muito importante que é a questão da subsidiodependência. Eu, enquanto pessoa com deficiência, enquanto técnico e consultor, defendo que devem existir apoios, sim, mas para quem deles necessita… ou seja, se estivermos a falar de deficiências do foro mental, do autismo, de problemas psicológicos, etc., essas pessoas têm direito a serem apoiadas com todos os subsídios e mais alguns agora, e tal como já referi, por detrás da deficiência existe também existe muita capacidade mas por vezes, e em alguns tipos de deficiência, como é o caso da motora, muitas pessoas encostam-se um bocadinho à sua situação e acabam por ir pelo caminho mais fácil que é pedir a reforma por invalidez e viverem, desde os 18, 20 anos, com duzentos e poucos euros por mês…

G.S.: O que na sua opinião é incorrecto…

P.D.: Na minha opinião cada um segue o caminho que lhe for mais oportuno e proveitoso mas, lá está, temos que mudar mentalidades e essa mudança tem que começar pela pessoa portadora de deficiência e pela própria família. Claro que também temos que ver o nível de formação educacional da família porque na prática quando se fala com estas pessoas geralmente encontrasse muita desconfiança, muito medo! Existe um grande sentimento de superprotecção e vou dar-lhe um exemplo: um dos projectos em que trabalhei, na área do empreendedorismo para pessoas com deficiência, foi um projecto criado por mim (e que acabou por ser premiado a nível nacional) enquanto funcionário de uma IPSS que apoiava jovens com deficiência que quisessem criar o seu próprio posto de trabalho. Num dos acompanhamentos que fizemos, numa reunião, eu e outra técnica passámos horas a tentar explicar a uma mãe, porque é que nós (projecto) existia-mos e porque é que queríamos ajudar a filha!… porque a senhora não conseguia entender o porquê de…mas claro, tal como já referi cada caso é um caso.

Aliás, o maior medo destas famílias é que os filhos percam as magras pensões de invalidez mas, muitas vezes, é essa a postura que acaba por matar as capacidades da pessoa deficiente, para além de que existe o outro lado da questão: se nós tivermos 10 deficientes a receber subsídio, se desses 10 cinco tiverem capacidades para integrar o mercado de trabalho, ficamos com dois grupos: os que trabalham, fazem descontos para a Segurança Social, estão integrados e felizes e, aqueles que realmente necessitam de subsídio podem passar a receber mais do que as magras pensões que agora são atribuídas. Ficariam todos a ganhar…

G.S.: O seu trabalho é compensador, a nível emocional?

P.D.: Este trabalho que faço é um trabalho muito duro mas, também, extremamente gratificante quando se conseguem resultados positivos e sentimos que conseguimos mudar alguma coisa

G.S.: Acha que as associações que trabalham com deficientes estão capacitadas para abrir esses horizontes ou, elas próprias, vivem à sombra do subsídio?

P.D.: Mais uma vez convém não generalizar. Como em tudo na vida, existe o bom e o mau. Há instituição que ainda estão muito atrasadas na imagem que têm sobre as pessoas com deficiência, há outras que fazem um óptimo trabalho e há outras que estão no meio caminho. Mais uma vez reforço aqui o papel da família. Mais de 90 por cento do trabalho de inclusão da pessoa com deficiência faz-se com e a partir da sua própria família. Porquê? Porque se a pessoa deficiente não sentir o apoio, o empenho e a abertura de quem lhe está mais próximo não tem força para seguir em frente

G.S.: O Pedro acha que é um exemplo para outros deficientes?

P.D.: Eu não me acho nem um exemplo nem uma pessoa especial. Acho que enquanto pessoa com deficiência devo contribuir para que a sociedade, cada vez mais, entenda a deficiência como uma situação comum e procure criar as condições para que a deficiência seja, em si própria, cada vez mas integradora. É claro que as mudanças não são rápidas, mas vamos trabalhando para que as condições e as mudança aconteçam.

Partilhe
ver mais