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GAZETA SETUBALENSE
A informação na hora certa.
Hands On Approach: 20 anos de carreira na cidade que os viu nascer
ana maria santos
2017-01-19 / 18:06
São poucas as bandas portuguesas que se podem orgulhar de serem acarinhadas pelo público ao longo de 20 anos. Os Hands On Approach (HOA) conseguiram-no e escolheram a sua cidade natal para celebrar essas duas décadas.

Gazeta Setubalense: Duas décadas de existência no panorama musical português é muito tempo e não são muitas as bandas portuguesas que conseguem esta longevidade. Qual foi a génese da formação dos Hands On Approach? Ou seja, como começou esta aventura que tem vinte anos e já agora o que a fez perdurar ao longo da tanto tempo?


Rui David: Em 1996 estava em Faro, na Universidade do Algarve a estudar. Num dia em que não tivemos aulas eu e alguns dos meus colegas de curso decidimos ir até à praia. Levámos guitarras e djembés e passámos essa tarde a tocar. Na altura eu tinha alguns temas originais também e enquanto cantava passou um locutor de rádio que por ali ficou a ouvir e no fim veio ter comigo a convidar-me para uma actuação ao vivo no seu programa de rádio. Prontamente aceitei e reuni alguns amigos para essa actuação. Daí nasceram os Hands On Approach. A formação original ao longo do tempo foi sofrendo algumas alterações sendo que a mim e ao meu irmão João Luis se juntou mais tarde o Sérgio. Este trio tornou-se o núcleo duro da banda uma vez que toda a composição e decisões passava por nós os três, sempre acompanhados pelos restantes músicos que ao longo dos tempos têm vindo a tocar connosco. Penso que o facto de neste trio haver uma ligação muito forte (fui colega do Sérgio no secundário e foi com ele que dei os meus primeiros passos na música e o Sérgio também já tocava numa banda com o meu irmão) torna possível que os HOA ainda hoje existam e continuem activos. Apesar do João Luis estar há já alguns anos a viver fora do país, mantemos a ligação e a energia necessárias para continuarmos.


G.S.: Os HOA são uma banda da cidade de Setúbal, como olham para o panorama cultural setubalense (passada, presente e futura), particularmente na vertente musical?

R.D.: Setúbal sempre teve gente muito talentosa, lembro-me de existirem sempre muitas bandas e músicos e actualmente essa tendência mantem-se. Portanto é com bons olhos que vejo o panorama cultural de Setúbal.


G.S.: Sendo os HOA uma banda do século passado [risos], as maquetas eram gravadas em estúdio e passadas para cassete. Numa época em que o advento da internet dava os primeiros passos e não existiam “estúdios de gravação” em computadores portáteis. Como era o processo para conseguir gravar uma maqueta com uma qualidade de áudio que conseguisse seduzir os AR’s das editoras, promotores de espéctaculos, etc?

R.D.: Era um processo que exigia muito mais dos músicos, dos instrumentos, dos técnicos e até dos próprios estúdios. Lembro-me por exemplo dos gravadores de fita que pareciam frigoríficos e que custavam balúrdios. Das mesas de mistura gigantes que por vezes precisavam de manutenção e lá ficávamos um dia ou outro parados. De passar noite e madrugada a gravar vozes porque já não tinhamos mais budget para o estúdio e de sair às seis da manhã. Enfim... era outra realidade. Hoje em dia os processos são outros mas de uma forma geral todo o processo de gravação é menos exigente e também mais autónomo para as bandas, que em casa já conseguem praticamente gravar discos inteiros, sem a pressão de timings e budgets ditados pelas editoras. E ainda bem que é assim... as bandas têm mais oportunidades nos tempos que correm.


G.S.: Neste sentido, os HOA fazem a transição para o século XXI que tem a marca indelével da cultura digital. Que impacto teve o “digital” na vossa produção musical e na promoção da mesma?

R.D.: Ao longo dos anos fomo-nos gradualmente adaptando e penso que o impacto foi pouco. Estamos habituados a trabalhar digitalmente e acho que tivemos mais a ganhar do que a perder em muitos aspectos. Só em termos de som propriamente dito é que há certas coisas que ainda não chegam há qualidade do analógico. De resto só vejo vantagens.


G.S.: Quando os HOA gravaram o primeiro álbum a banda e o vosso tema My Wonder Moon, que se tornou icónico, já era muito ouvido no circuito mais independente [recordo que já tocavam um pouco por todo o país ao vivo e em algumas rádios]. Durante estes 20 anos pensam que de alguma forma se conseguiu consolidar um circuito musical independente em Portugal que permita aos vários projectos musicais pisar palco e amadurecer? 

R.D.: Penso que sim e mais uma vez a importância da Internet e da era digital. Quando começámos poucas bandas tinham a hipótese de conseguir um contrato com uma editora e esse circuito independente não era a realidade que é agora. Existem projectos, hoje em dia, que nascem na internet e que quando chegam à estrada, mesmo que pelo circuito independente, já têm milhares de fãs e enchem qualquer sala no país. Isso são fenómenos que hoje em dia são normais mas que há 20 anos atrás eram impensáveis. 


My Wonder Moon: o primeiro videoclip dos Hands On Approach

G.S.: Na vossa opinião quais são as diferenças mais significativas entre o panorama musical português de 1996 e o actual?

R.D.: A qualidade geral do panorama musical actual! As gerações que chegaram, em minha opinião, são muito mais cultas musicalmente. São miúdos que têm já uma maturidade e gosto musical muito refinados. Já trabalhei como produtor com músicos na casa dos 20 anos e que musicalmente parecem ter 40, dada a sua maturidade... a internet, mais uma vez, entra aqui em jogo... o acesso a todo o universo musical que hoje em dia é possível com apenas um clic faz com que a evolução desta malta nova seja muito mais rápida. Consomem mais música e isso começou logo desde pequenos. E o que dizer das próximas gerações... chega a ser assustador (no bom sentido) pensar no que aí vem... 


G.S.: Para os mais distraídos, quantos álbuns editaram ao longo deste vinte anos?

R.D.: Estamos agora a gravar o 5º de originais e temos também um DVD/CD gravado ao vivo no Casino da Figueira, em 2007. Por ordem cronológica : “Blown” (1999), “Moving Spirits” (2000), “Groovin´on Monsters Eye-balls” (2005), “10 Anos – Casino Figueira Acústico” (2007), “High & Above” (2010) e o novo disco que sairá este ano.


G.S.: Como avaliam a evolução da vossa estética musical ao longo destes vinte anos de produção musical?

R.D.: Normal... qualquer músico ou banda tem tendência a evoluir ou pelo menos interesse e vontade de o fazer. Acho que nós assim o temos feito e se fosse de outra maneira nem fazia sentido. Isso é importante para que continues a ter prazer na música que fazes.


G.S.: O facto da maioria do vosso repertório ser em língua inglesa, dificultou de alguma forma a vossa afirmação no mercado musical português e a difusão das vossas músicas nos media?

R.D.: Sim, especialmente nos últimos anos em que se faz do “cantar em português” uma espécie de “obrigação” das bandas portuguesas, coisa que na nossa opinião não faz sentido nenhum. Achamos que é um bocado nonsense uma vez que a arte é o expoente máximo da liberdade. E que não devemos forçar se isso não é algo que saia naturalmente, pelo menos no nosso estilo musical. Queremos continuar a ser fiéis àquilo em que acreditamos e não vamos atrás de modas. E se um dia sair algo em português será bem-vindo mas lá está, não pode ser forçado. 


G.S.: Qual a vossa opinião sobre os críticos musicais dos media em Portugal? Alguma vez sentiram que “aquela crítica” tinha sido injusta?

R.D.: Sim já sentimos muitas vezes mas nada que nos tivesse feito desviar do nosso caminho. Respeitamos o trabalho deles e esperamos que também respeitem o nosso.


G.S.: Existem comentários muito positivos nas redes sociais, nomeadamente no Youtube, de utilizadores estrangeiros sobre as vossas músicas e letras. Se os HOA fossem uma banda de um outro país (por exemplo, Inglaterra ou E.U.A.), pensam que teria sido mais fácil alcançar projeção internacional?

R.D.: Claro que sim mas isso seria um tema com muitas variáveis... estaria-mos no campo da especulação. Já houve uma altura em que sonhámos com isso. O tempo fez-nos ter mais os pés na terra. Queremos fazer o melhor que conseguirmos e se um dia acontecesse iriamos ficar muito felizes... mas não perdemos o sono por causa disso. 


G.S.: Com tantos anos de estrada, existe algum episódio que vos tenha marcado pela positiva ou negativa?

R.D.: É sempre difícil individualizar experiências que tivemos em 20 anos... mas é bom olhar para trás e ver que foram muito mais as experiências positivas que as negativas. E que hoje ainda cá estamos, com a mesma vontade de fazer música que tínhamos nessa altura. 


G.S.: Que conselho de amigo dariam às bandas que estão a começar?

R.D.: Procurem uma identidade própria e sigam sempre aquilo em que acreditam. Mas façam-no de forma também racional e não apenas emocional. 


G.S.: Estão prontos para mais vinte anos?
R.D.: A essa pergunta respondemos usando a gíria futebolística: é jogo a jogo!

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