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GAZETA SETUBALENSE
A informação na hora certa.
Opinião
A velha Maria & Companhia
O frio havia chegado repentinamente. De um calor, tórrido, africano, saltámos para o gelo, seco, do Ártico. E de um momento para o outro, como o tempo passa, faltava um mês para a festa da família, a festa do consumismo, das prendas e das manifestações hipócritas, enfim de tudo o mais que os euros dêem para comprar ou subornar; - do bacalhau, às filhoses, broas de mel, nozes, passas e do rei da festa, o peru recheado, a lampreia de ovos moles e o bolo rei.

O Natal faz anunciar seguido de uma tortuosa azafama da multidão. Num canto da praça mais populosa da cidade, espaço dividido pela estátua do poeta sadino e a casa do poder citadino, deambulavam alguns atarefados cidadãos. Mas outros havia, que mal se davam por eles, deambulavam sem rumo envoltos nos farrapos antes vestimentas coloridas. Vagueavam alguns mendigos, movimentando-se para combater o frio, na busca de uns cobres que os ajudassem a mitigar a fome, uma sopa quente, um carinho para o estômago.

A velha Maria quase gritou o apelo esgotado pelas repetitivas palavras que mais pareciam uma lenga, lenga estudada: - Uma moeda por favor, uma só, uma das mais pequenas. Uma só moeda já ajuda e é tudo o que vos peço gentis senhores, destintas damas! A andrajosa idosa escondia um sorriso malandro, trocista, envolvente naquelas breves palavras, repetidas vezes sem conta. Mas nada se alterou como se fosse transparente, passavam por ela e/ou mudavam de rumo, o povo passava indiferente e tão rápido, que a mendiga parecia ser apenas um obstáculo. De mão estendida, o povo passava fugindo dela e dos outros mendigos que por lá deambulavam. Talvez e apenas ouvissem o início da frase. A sua indumentária era o suficiente para afastar os passantes.

Mas sem abrandar a multidão continuava a passar por ela sem se preocupar em a ouvir em dar conta do dramático apelo da pobre mulher. Maria olhou à sua volta, outros como ela também andavam por ali, esperando, aguardando, que uma simples moeda lhes caísse na mão. O velho Matias de olhos muito abertos e cabelo desgrenhado, deambulava de um lado para o outro arrastando os pés. A praça cada vez tinha mais gente. Matias como sempre calçava uns chinelos sem meias. Estava acostumado ao frio, não o incomodava. Não era esse o seu maior problema. Andava na sua tarefa habitual, à noite precisaria de mais cartões para forrar a sua pequena cabana montada numa arcada qualquer da cidade ou num vau de escada de um prédio qualquer. Bem se a polícia não o viesse enxotar dali para fora, para longe dos olhos da população, que parecia incomodada ao passar junto ao casebre de cartão. Matias fora um bom trabalhador, pescador, pedreiro, durante toda a sua vida, depois que sua Rosa falecera, perdeu o gosto de viver, toda a paixão pela vida. Viu-se só na vida sem rumo, procurou a rua, deixou tudo para trás levou com ele um retrato da sua Rosa, tudo o que tinha de mais valor para si. O resto eram coisas, estáticas, sem vida, mudas, frias.

Noutro canto da movimentada praça uma velha muito magra, estava sentada num peal escondido dos olhos dos donos do espaço comercial e dos seus clientes. Aquele estabelecimento era uma das mais famosas casas comerciais da cidade, bem frequentada, principalmente pela alta sociedade social do burgo. A pobre mendiga não incomodava o acesso à loja, tivera esse cuidado, por isso ninguém se preocupava com a sua presença. Ali estava como todos os dias, trocando melodias por moedas. Colado ao magro peito amparado pelas débeis pernas muito fracas, envoltas nuns trapos que em tempo fora uma saia, um enorme acordéon de onde saía uma melodia clássica de outros tempos. Dos tempos dos reis e rainhas, de uma Áustria onde a música subia aos céus junto às margens do rio. O Danúbio murmurava ao som das melodias apaixonantes que conhecia de cor, o Sado ouvia-a com atenção. A velha, de quem ninguém sabia o nome, não dizia nada, tocava e de olhos fechava viajava até à sua terra natal pelo som da sua música. A fome repousava calma no estômago, pelo som do fole do acordéon vinha o dom da vida, seu alimento principal. Palavras para quê, tudo estava dito, musicalmente dito pela melodia doce que seus dedos deslizando pelo teclado produziam. Os surdos continuavam o seu caminho. A melodia da saudade continuava sem fim a subir na atmosfera gélida do espaço.

Uma criança parou frente à velha. A melodia que saia do instrumento acalmava-a e parecia querer falar com ela. O balão branco, preso ao seu pulso encostou-se à sua cabeça ternamente. A sua deficiência apurava mais e mais os seus sentidos. Aquela mulher a sua música não a marginalizavam como faziam certos colegas seus na escola. As melodias guardavam um espaço para si num Mundo de pernas para o ar. Abençoado Natal que a todos chega sem descriminar.