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GAZETA SETUBALENSE
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Opinião
Errar é desumano

No lado lunar da existência o erro, a omissão, a incúria, a negligência são dimensões da diversidade da imperfeição do Homem. As consequências subjacentes são, não raras vezes, desproporcionais em relação à incorrecção do gesto, do procedimento, da técnica, da manobra treinada e amadurecida. Li, cedo na vida, uma pequena noticia num periódico nativo que marcou lugar cativo na memória. Um robot fabricado no Japão entrou em descontrolo e vitimou o seu operador. Confesso marcante a história pela reserva que me incutiu perante a impiedosa frieza do autómato, não fora a percepção juvenil da óbvia inexistência de sentimentos da máquina. Anos mais tarde os Police editariam um LP em vinil cujo título me avivaria a fatalidade. “Ghost in the machine”, um fantasma na máquina, era um rótulo por demais elucidativo para identificar a adversa contrariedade entre o criador e a obra, qual monstro de Frankenstein dos tempos modernos.

O tempo processa e eterniza os traços e estigmas da ambição humana no domínio da tecnologia, pervertendo o verdadeiro sentido da ciência como área do saber tendo como missão solene servir a humanidade.

Em Março de 2018, no estado do Arizona, uma viatura automatizada da Uber atropelou mortalmente uma transeunte junto à passadeira da via pública desrespeitando as regras do tráfego e da concepção técnica de engenharia.

No mesmo mês no Quénia, no Hospital Nacional de Nairobi, uma equipa de Neurocirurgia efectuou uma intervenção ao cérebro ao doente errado apercebendo-se da falha durante a operação, no contraste entre o diagnóstico justificativo do procedimento e os achados intraoperatórios.

O silêncio dos inocentes perante o triunfo do indesejável e do evitável. O percalço imperdoável da máquina e do homem em plano de aparente igualdade. Inimputável a primeira. Condenável o último. A todos os títulos penalizável o excesso de confiança do autor do projecto do automóvel e o abuso de confiança da máquina na mácula e pequenez da sua autonomia incontrolada.

Em Abril, na primavera adiada, a remissão dos pecados da ética do conhecimento surge com o anúncio em Liverpool de um adepto do Everton, impossibilitado, por força de uma doença degenerativa grave, de presenciar em Goodison Park a exibição de Wayne Rooney e companheiros, tendo a primazia de, através de uma câmara transportada por um dos futebolistas, visualizar a emoção do jogo como um deles. Nas imediações do tapete verde.

Num episódio imaculado e condenado à eternidade da sua grandeza.