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GAZETA SETUBALENSE
A informação na hora certa.
Opinião
Os dias antes do Natal
A cidade veste-se para a festa. O pontapé de saída fora dado havia poucos dias. Acenderam-se as luzes da grande árvore no passeio da Avenida principal da cidade. As ruas comerciais encheram-se de música condizente e os enfeites natalícios saíram da caixa do tempo. As grandes superfícies comerciais baixaram preços, (pensasse), o subsídio de Natal começou a sair rapidamente das carteiras por ora gordas pelos dois meses recebidos.

O vento gelado chegava em força. A chuva fazia fintas, as barragens continuavam vazias, os campos estavam cinzentos, a terra morta. O mar calmo vazio de vida repousava a meus pés. O som da quilha rasgando as calmas águas não eram mais do que uma marcha fúnebre pela vida marinha que pouco a pouco ia deixando o planeta Terra.

O frenesim da multidão continuava. Falava-se até já da passagem do ano. Mil planos, mil preços, mil diferentes maneiras de se divertir, de brindar ao novo ano. Os olhos brilhavam, só se viam caras risonhas e as conversas, não eram azedas. Nas pastelarias viam-se já as tortas de chocolate que pareciam ser troncos de Natal, alusão às inúmeras árvores ardidas! Monumentos do Verão e Outono quente deste ano? Os males por ora ficavam guardados na caixa do passado, agora era tempo, hora, a devida altura dos olhos, se fascinarem e brilharem de alegria. As montras estavam repletas de prováveis presentes para ofertar a este e mais aquele amigo, parente, futuro, presente ou passado.

No hospital, agonizava alguém, um alguém que não se sabia o nome. Morria só o sem rumo, o velho, o esquecido. O louco andava alheio como de costume com tudo o que demais se passava à sua volta. O dependente sentia frio e o vazio do conforto de um abraço. O miúdo de cara suja tremia de mão estendida à caridade de quem passava atarefado, sem o ver. O pouca roupa esquelético, tremia de frio. Tal como a gente gelada que por ele passava o dia dele seria gelo e neve. No estomago bailava o café que a mãe lhe fizera das borras do café de ontem. A idosa passou lentamente pela montra repleta de doces, quentes e fofos. Ficou-se pelo breve segundo do calor ameno e doce que enchia o ar.

Seria o anel de pedras preciosas ou o relógio de ouro? A dúvida mantinha-se. Seria o presente, o futuro de uma longa relação? Quanto custavam, observou os preços, ninharias, pensou de si para si. Que interessava uns zeros a mais ou a menos!?  O livro saiu da prateleira. Era o último, chegara a tempo. A livraria estava cheia, alguns abraçavam rimas de livros, cultura avulso. Prenda esquecida na estante do tempo. O perfume, o CD, tudo se ia amontoando na mesa aguardando ser vestido de papel dourado ou de estrelas prateadas, abraçados por fitas vermelhas ou amarelas ouro, terminadas em gigantescos laços.

A tosse parecia arrancar-lhe o peito, mesmo assim, entre os dedos amarelados repousava o cigarro acesso. O plumão não respondia ao esforço que fazia para respirar. Seria melhor ter ficado enfrente ao televisor de pantufas e pijama quente vendo o Mundo através da janela mágica. Mas era impossível tinha aquele biscate e não podia falhar, o dinheiro fazia-lhe falta. Ao fechar a porta ainda ouviu um ai da mulher que a doença pouco a pouco minava. Cerrou os punhos, tossiu mais uma vez, abriu a porta e saiu para rua gelada, era Natal, mas o lixo não se podia acumular nos contentores e o dinheiro fazia tanta falta

para a medicação. Teve de roer a fatia de pão duro com laivos de bolor. Não tinha nada mais para enganar a fome.

A lagosta escalada é o centro de mesa do anafado senhor, frutos do mar pejavam a mesa farta. No hospital estava numa cama, esquecida, uma velhota que na noite anterior

alguém havia deixado à porta das urgências. Balbuciava uma prece, com a firma convicção de que os anjos a viessem buscar e levar até à mesa farta do Cristo comemorado.

Enfim, os dias passavam, o Natal batia à porta. O velho de barbas brancas e vestido de vermelho, trazia a todos o seu presente; - saúde, amor, compaixão.

Feliz Natal a todos.