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GAZETA SETUBALENSE
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Opinião
Paz Celestial
Casa onde não há pão todos ralham e "alguém" tem razão.

Na História a mesma água pode passar debaixo das pontes.

A Venezuela é cenário de tumultos sociais cuja repercussão nas ruas contagia a comunicação social de todo o mundo e alerta a opinião pública internacional para os atropelos aos mais elementares direitos humanos. Casa onde não há pão todos ralham e "alguém" tem razão. No regime que se diz herdeiro de Simon Bolívar, figura libertária do jugo castelhano da América Latina, detentor de riquezas incalculáveis, potência produtora do ouro negro, os alimentos escasseiam e os medicamentos rareiam. As liberdades políticas são abolidas e a oposição é esmagada pela repressão policial de modo brutal numa batalha civil travada nas ruas e num conflito de consciências protagonizado nas prisões domiciliárias e nas cadeias onde se torturam os líderes e anónimos militantes da contestação.

Maria José Castro é uma portuguesa emigrante madeirense, de nacionalidade venezuelana, cuja determinação e coragem a destacou na multidão de vozes críticas à tomada de posse da Assembleia Constituinte. Nas ruas de Caracas ousou colocar-se à frente de um carro de combate apelando á força da Fé, intitulando-se "soldado de Deus" e apelidada de "Senhora Liberdade" pela imprensa estrangeira. Apesar de solidária e intérprete da defesa de uma solução pacífica e não armada, pedindo aos soldados que não alvejassem os jovens manifestantes, foi atingida por uma bala de borracha e encaminhada para as Urgências Hospitalares. Retiraram-lhe pela segunda vez um projéctil mas não a convicção dos seus princípios.

A memória transporta-nos para 1989 na Praça de Tiananmen, significando Paz Celestial, palco do Massacre ocorrido no dia 4 de Junho onde estudantes, intelectuais e trabalhadores se concentraram durante semanas em protesto contra as reformas políticas do regime de Deng Xiaoping, adversas às aspirações das novas gerações, num contexto de abertura da União Soviética, na época da Glasnost de Gorbatchov. Nessa data, uma brutal intervenção das tropas governamentais infligiram milhares de mortos e feridos num banho de sangue e horror. No dia seguinte um jovem solitário enfrentou uma coluna de tanques de guerra na Praça, transformando-se numa das figuras do Século do Povo, sob a designação de "O Rebelde Desconhecido".

As mesmas águas turbulentas debaixo das pontes.

A mesma corrente que inspirou a audácia e arrojo do Major Salgueiro Maia que, na madrugada épica de 25 de Abril de 1974 em Portugal, afrontou um tanque na Rua do Arsenal em Lisboa com o canhão apontado à sua figura de intrépido herói da Revolução dos Cravos.

Três imagens do nosso imaginário que incorporam o mesmo espírito e alma dos (as) resistentes sem reservas ou limites, que moldam as arestas dos acontecimentos com a imprevisibilidade dos audazes.

Na Paz Celestial reside Salgueiro Maia no túmulo dos imortais, tem lugar reservado Maria José na intensidade e veracidade da sua cristandade, se manterá vertical, ortostático, no mausoléu dos rebeldes, o desconhecido que ambicionamos, nas horas de rendição e cobardia, ser.

Como as árvores que morrem de pé. 


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico